
Brandon Flowers pisou pela primeira vez um palco português sem os The Killers. Fortemente criticado pelos media e acima de tudo pelos fãs da banda de Las Vegas, provou conseguir ocupar um público que, na sua maioria, não esperava por ele. Com um alinhamento acima de tudo inteligente revelou-se, inesperadamente, a receita ideal para o início de noite.
Ao chegarmos à frente do palco nem sabíamos o que pensar. Encarávamos uma imagem que mostrava uma panorâmica gigante de uma cidade banhada pelo pôr-do-sol, um pequeno palco de madeira com Brandon Flowers desenhado, móveis rústicos – de armários a cómodas - e um teclado que imitava uma mesa. A bateria no centro mostrava um flamingo – o animal que baptiza o álbum.
E agora? Nas primeiras filas podia ler-se "We want your moustache back" - onde o bigode era apenas um desenho.
Quando o sensual vocalista entrou vestia um colete preto em V e uma camisa branca. Abanava-se, marcava o compasso e não parava de sorrir.
O público mostrava-se hirto e desconfiado. À minha frente, enquanto se ouvia Crossfire (o primeiro single a solo do cantor e a música de abertura do concerto), um rapaz de vinte e poucos anos perguntava a outro se não conhecia aquilo que se estava a tocar. De óculos Ray Ban tigrados e alargadores nas orelhas o rapaz estranhava a música. Lay your body down … “Ah! Já conheço!”
Uma espanhola que cortava a fila esforçadamente dizia que queria comê-lo, não vê-lo. Brandon dava saltos loucos e a música - que tocou em repeat nos autocarros para a praia - fazia vibrar o recinto.
“BRAVO, BRANDON!” gritava-se ao nosso lado.
Flowers fez uma breve, ainda assim profunda introdução, a “Jilted Lovers & Broken Hearts”. Gritava-se em tom de piada “Faz-me um filho!”. Nos ecrãs um cartaz do público pedia por abraços do vocalista. Com músicas baseadas em sons vocálicos do artista, naquela que pode ser considerada a actuação mais pop de hoje no palco Super Bock, o ar de desconfiado do público mantinha-se. Alguns abanavam a cabeça, assistiam-se a muitas conversas laterais e pessoas de costas para o palco. Mas também palmas.
De modo expressivo – como aliás foi toda a actuação do músico – olhou para o céu e ergueu as mãos. As primeiras filas saltavam ininterruptamente e o cantor desfazia-se em vénias e sorrisos.
As palmas sincronizadas acompanharam Bette Davis’ Eyes. Aceleravam no refrão. Entre cada música, o cantor tragava um golo de uma garrafa de água. Estávamos cercados de fãs que sabiam as letras de cor. E nenhum de nós conseguiu negar que Brandon Flowers tem, inquestionavelmente, uma grande presença em palco.
Foi a vez de Read My Mind dominar o recinto. A música dos The Killers – uma das minhas preferidas da banda – conquistava o público e começava a levar os fãs de outros concertos a apreciar e participar no ambiente que se gerava com a excelência da performance. Fãs com t-shirts que iam de Strokes a Metallica ou Guns'N'Roses iam cedendo aos poucos e saltavam, riam e tentavam acompanhar. A intensidade ampliava o seu raio de expansão e o epicentro era um norte-americano que tomando conta do público ria e reagia de modo vitorioso à recepção calorosa que recebia.
O baterista limpava a cara com a toalha. Brandon trauteava os acordes da guitarra enquanto olhava o baixista. Isqueiros erguiam-se no ar. Acenava-se com balões. Um rapaz de tronco nu às cavalitas de um outro destacava-se de toda a multidão e fazia corações com as mãos brincando com o músico.
Um casal fazia bolas de sabão que preenchiam o olhar e prendiam a atenção dos mais desatentos ou daqueles que tentavam perceber se tal fazia parte do espectáculo. Um enorme cartão dizia “FREE DUST” e levanta-se realmente imensa poeira com os saltos. No entanto isso acabou.
Entrámos numa espécie de buraco negro: uma sequência de músicas calmas instalou a apatia e entorpeceu o público. O cantor soube, porém, dar a volta a isso e imitando um robot na perfeição roubou sorrisos ao público. Na recta final puxou por ele.
Mr. Brightside foi um golpe inteligente e levou todos ao êxtase. Um grupo de jovens espanhóis gritou a plenos pulmões – e no melhor "espanglês" que ouvi no festival – a música dos The Killers.
O simpático e bonito cantor sorriu, fingiu tirar o chapéu e saiu do palco. Atrás dele uma grande – e merecida! – ovação.
“Isto foi muito bom” ouvimos. “Não foi nada do que estava à espera”.
Um enorme cartaz branco deixava ler “BRANDON FLOWERS WILL YOU MARRY ME? (I’m a decent girl)”.
A caminho de escrever este artigo ainda ouvimos trautear e dançar músicas do cantor.
E uma coisa é certa: com ou sem The Killers, se Brandon não converteu, pelo menos deixou o Meco muito bem entretido.
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